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Segundo cérebro: qual a relação entre os sistemas digestivo e nervoso?

Você já ouviu falar que temos um “segundo cérebro”? Essa expressão é usada para se referir ao sistema nervoso entérico (SNE), um conjunto de neurônios que fica no intestino e funciona de forma surpreendentemente e conjunto com o cérebro e da medula espinhal.1

Por muito tempo, esse termo foi visto com estranheza pela ciência. No entanto, após muitos estudos e uma boa dose de descobertas, ficou determinado que o nosso intestino tem, sim, tudo a ver também com o nosso estado emocional.1

Ou seja: as suas borboletas no estômago têm uma explicação! Se vai parar no banheiro após sentir certo nervosismo ou vive associando as emoções ao funcionamento digestivo, este post é para você. Continue a leitura e saiba mais!

O que é o “segundo cérebro” e como é sua anatomia?

O sistema nervoso entérico é como uma rede de controle própria no intestino. Por conta disso, ele é responsável por coordenar atividades importantes, como a digestão, o movimento dos alimentos pelo trato gastrointestinal e até a defesa contra invasores externos, em conjunto com o sistema imunológico.1

Inclusive, essa rede é tão completa que pode realizar muitas funções sem precisar de ordens do sistema nervoso central (SNC)!1

O sistema nervoso entérico recebeu o apelido de “segundo cérebro” por sua complexidade. Por ali, há milhões de neurônios e diversos tipos de neurotransmissores, incluindo a serotonina, que também está associada ao humor no SNC.1

Assim como nosso cérebro, o sistema nervoso entérico é capaz de coordenar atividades complexas. No entanto, seu foco está no funcionamento do sistema digestivo.1

Como o sistema nervoso entérico funciona e se comunica com o cérebro?

Como você viu até agora, o “segundo cérebro” é uma área muito importante, que desempenha um papel essencial na digestão, absorção de nutrientes e eliminação de resíduos, além de manter o equilíbrio de fluidos e eletrólitos no organismo.2

Ele é altamente autônomo, mas mantém uma comunicação constante com o cérebro através do SNC usando os nervos simpáticos e parassimpáticos.2

Esse diálogo, conhecido como eixo cérebro-intestino, é mediado por sinais neurais, hormonais e químicos. É por isso que a ansiedade, por exemplo, pode alterar a motilidade intestinal, devido à influência do sistema nervoso sobre o sistema digestivo.2

Além disso, o sistema nervoso entérico regula padrões complexos de movimento do intestino, como o peristaltismo (ondas que movem o alimento ao longo do trato digestivo) e a segmentação (contrações que misturam os alimentos com enzimas digestivas).2

Além disso, os neurônios controlam a liberação de enzimas e fluidos para auxiliar na digestão e absorção de nutrientes. Por fim, o sistema nervoso entérico também contribui para a função de barreira, protegendo o intestino contra patógenos.2

Mas como tudo isso acontece? De modo geral, a resposta está na interação das células do intestino com outros grupos celulares, como os relacionados aos movimentos, à pele e ao sistema imunológico.2

Outro exemplo de interação está na questão emocional. Problemas no sistema nervoso entérico, como inflamações ou desequilíbrios na microbiota, podem estar associados a problemas de motilidade intestinal. Como exemplo, é possível citar a síndrome do intestino irritável (SII), que pode contribuir para o entendimento de condições como a depressão e a ansiedade.2

Isso porque, como vimos, a serotonina, um neurotransmissor crucial para o humor, é amplamente produzida no intestino e no cérebro. Além disso, ela também é produzida no intestino, o que pode conectar a saúde intestinal à saúde mental.2

As alterações no eixo cérebro-intestino têm condições associadas?

Sim! Além da SII que mencionamos, outras condições podem estar associadas a essa relação.2

Entre os exemplos mais sérios estão doenças como a Doença de Hirschsprung e a Síndrome de Obstrução Pseudo-Intestinal Crônica que, em muitos casos, exigem intervenções cirúrgicas ou nutrição intravenosa para garantir a melhora do paciente.2

Qual é o impacto do estresse e das emoções na digestão?

O estresse, definido como uma ameaça ao equilíbrio do organismo, pode afetar tanto a curto quanto a longo prazo as funções do trato gastrointestinal. Por isso, quando o corpo está exposto a situações estressantes, pode ocorrer uma alteração nas interações cérebro-intestino.3

Os efeitos do estresse na digestão são diversos e podem afetar a fisiologia intestinal de várias maneiras:3

  • alterações nos movimentos do intestino, impactando a digestão e a absorção de nutrientes;
  • intensificação da sensibilidade do trato gastrointestinal, levando a uma maior percepção de dor e desconforto;
  • interferência na produção de secreções gástricas, afetando a digestão;
  • prejuízos para a capacidade de regeneração da mucosa intestinal;
  • alteração da composição da microbiota intestinal, o que pode contribuir para o desenvolvimento de doenças gastrointestinais.

Qual é a importância de uma dieta equilibrada?

Segundo cérebro: qual a relação entre os sistemas digestivo e nervoso?

A microbiota, também chamada de flora intestinal, é um ecossistema complexo, composto por milhares de espécies microbianas. Sua composição e atividade podem ser influenciadas por diversos fatores, como dieta, estilo de vida, genética do organismo hospedeiro e medicamentos.4

A dieta, por sinal, desempenha um papel fundamental na modulação dessa microbiota, afetando diretamente a saúde intestinal e geral do indivíduo.4

Alterações na alimentação, como o consumo excessivo de alimentos ricos em gorduras ou carboidratos processados, podem causar disbiose, que é o desequilíbrio da microbiota intestinal.4

Por sua vez, esse desequilíbrio pode estar relacionado ao desenvolvimento de condições como obesidade, diabetes, doenças hepáticas não alcoólicas, alguns tipos de câncer e até distúrbios mentais, como ansiedade e depressão.4

A obesidade, uma das doenças mais associadas a dietas inadequadas, pode estar diretamente ligada a alterações metabólicas e à disbiose intestinal. Pesquisas indicam que dietas com altos níveis de gordura podem promover um aumento no crescimento de microorganismos prejudiciais no intestino, ao mesmo tempo que diminuem a abundância de bactérias benéficas.4

No entanto, intervenções com dietas equilibradas, ricas em probióticos e prebióticos , têm mostrado efeitos positivos na restauração do equilíbrio microbiano, ajudando a reduzir inflamações e melhorar os perfis metabólicos.4

Além disso, dietas ricas em prebióticos, como fibras que favorecem a proliferação de bactérias benéficas como Akkermansia muciniphila, podem ajudar na regulação do peso e na melhora do metabolismo, ao reduzir a inflamação e a resistência à insulina, fatores-chave no controle da obesidade e diabetes tipo 2.4

Além de seu impacto na microbiota intestinal, a dieta pode afetar a expressão dos genes em outros sistemas além do trato gastrointestinal. Isso foi evidenciado por estudos em camundongos, em que uma dieta específica alterou a composição da microbiota e influenciou características metabólicas, como ganho de peso e resistência à insulina.4

Ou seja, esses estudos sugerem que o controle dietético pode ser uma ferramenta importante na prevenção de doenças crônicas associadas a desequilíbrios metabólicos e à disbiose.4

Gostou de saber mais sobre o segundo cérebro? Agora, você tem mais um motivo para cuidar ainda melhor do seu intestino, já que conhece a sua importância para a emoção e a conexão que existe entre nosso sistema nervoso e a parte digestiva.

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As opiniões emitidas pelo(a) especialista são independentes e, necessariamente, não refletem a opinião da Libbs.

Artigo elaborado em: 29 nov. 2024.

Referências:

1. Gershon MD. The enteric nervous system: a second brain. Hosp Pract (1995). 1999;34(7):31-2, 35-8, 41-2 passim.

2. Schneider S, Wright CM, Heuckeroth RO. Unexpected Roles for the Second Brain: Enteric Nervous System as Master Regulator of Bowel Function. Annu Rev Physiol. 2019;81:235-259.

3. Konturek PC, Brzozowski T, Konturek SJ. Stress and the gut: pathophysiology, clinical consequences, diagnostic approach and treatment options. J Physiol Pharmacol. 2011;62(6):591-9.

4. Jiang Z, Jacob JA, Li J, Wu X, Wei G, Vimalanathan A, Mani R, Nainangu P, Rajadurai UM, Chen B. Influence of diet and dietary nanoparticles on gut dysbiosis. Microb Pathog. 2018;118:61-65.